Neste post, discutiremos o termo duplo-cego. Mais especificamente, descreveremos o que é “cegamento” e, no contexto de métodos de pesquisa, o que são estudo simples-cego, estudo duplo-cego e estudo triplo-cego. Além disso, descreveremos os vieses que os estudos duplo-cegos visam controlar. Por fim, abordaremos brevemente outro uso do termo duplo-cego, a saber, no contexto da submissão de manuscritos científicos ao processo de revisão por pares.
O que é “cegamento”?
O “cegamento” é uma estratégia metodológica que consiste em limitar as informações sobre o estudo fornecidas a diferentes atores do contexto de pesquisa. Pesquisadores usam esse procedimento a fim de impedir que crenças prévias, associadas a conhecimentos sobre o projeto de pesquisa, influenciem comportamentos, avaliações ou registros.
Por exemplo, suponha que treinamos observadores para codificar os padrões de interação mãe–bebê. Nossa hipótese é que determinados tipos de interação são mais prevalentes em bebês nascidos a termo do que em bebês prematuros.
Contudo, para evitar vieses, ocultamos dos observadores tanto o objetivo e a hipótese do estudo quanto a informação sobre quais pares mãe–bebê envolvem crianças nascidas a termo ou prematuras. Essas informações são irrelevantes para o registro das interações e, portanto, podem introduzir vieses se conhecidas pelos observadores.
Nesse caso, o procedimento de cegamento impede que os observadores — ainda que involuntariamente — registrem mais ou menos interações de modo a confirmar a hipótese de pesquisa.
Desse modo, o termo cegamento faz alusão à omissão sistemática de informações. É como se os observadores fossem vendados e permanecem ingênuos (naïve) quanto a determinados aspectos do delineamento.
Vale reconhecer que um termo alternativo, embora menos comum, é o mascaramento (masking). Essa alternativa evita referências diretas à deficiência visual. Contudo, como a literatura científica ainda utiliza amplamente o termo cego, muitos livros-textos e artigos científicos o mantêm por motivos de padronização e legibilidade.

O que caracteriza um estudo duplo-cego na pesquisa clínica?
Anteriormente, vimos que o cegamento consiste em ocultar determinadas informações de determinados atores de uma pesquisa. Em um estudo duplo-cego, ocultamos certas informações tanto dos participantes quanto dos colaboradores que administram os tratamentos e coletam dados.
Por exemplo, em ensaios clínicos randomizados de medicamentos, participantes são designados aleatoriamente a receber um tratamento ativo ou um placebo. O ponto crucial é que os participantes não sabem qual substância recebem. De maneira semelhante, quem administra o medicamento e quem coleta as variáveis dependentes também desconhece a qual grupo cada participante foi designado.
Uma dúvida comum é como testar as hipóteses se até mesmo os pesquisadores são cegados durante a administração dos tratamentos. A resposta é simples: o pesquisador responsável pela organização dos tratamentos utiliza códigos conhecidos apenas por ele. Importante notar que esse pesquisador não administra o tratamento nem interage com os participantes, preservando o cegamento da equipe que conduz as sessões.
Vale salientar que o cegamento nem sempre é viável. Por exemplo, não é possível ocultar qual psicoterapia está sendo administrada do próprio terapeuta que aplica o tratamento. Assim, certos domínios exigem outras estratégias de controle de vieses.
Em síntese, o estudo duplo-cego fortalece a validade dos resultados ao reduzir vieses tanto dos participantes quanto dos pesquisadores que lidam diretamente com a intervenção (Figura 1).

Quais vieses o estudo duplo-cego visa controlar?
Um estudo duplo-cego controla, sobretudo, características da demanda e efeitos de expectativas dos observadores.
Características da demanda consistem em pistas que os pesquisadores fornecem voluntária ou involuntariamente aos participantes. Essas pistas podem surgir de detalhes sutis do ambiente, do tom geral da explicação do estudo ou de ênfases involuntárias durante a instrução.
Por exemplo, imagine que, ao explicar o procedimento, o pesquisador diga: “basta responder com calma; algumas pessoas percebem pequenas sensações durante o teste”. Ainda que a frase pareça neutra, o participante pode interpretá-la como um indício de que sensações são esperadas, ajustando seu relato para corresponder ao que acredita ser o objetivo do estudo.
O procedimento duplo-cego evita esse tipo de influência porque impede que o pesquisador saiba quem está em cada condição e, portanto, reduz sua tendência — consciente ou não — de dar pistas.
Em contrapartida, efeitos de expectativas dos observadores referem-se a vieses na coleta, avaliação ou registro dos dados cometidos pelos próprios pesquisadores. Nessa situação, quem administra o tratamento ou avalia as respostas pode registrar os dados de forma enviesada por acreditar que determinado grupo deveria apresentar melhores resultados.
Por exemplo, em um estudo sobre um novo ansiolítico, um avaliador que pensa estar observando um participante do grupo ativo pode, sem perceber, registrar mais sinais de relaxamento em respostas ambíguas, como pausas ou mudanças sutis de expressão facial.
Aqui, não é o participante que ajusta seu comportamento: é o observador que interpreta ou registra os dados de modo ligeiramente tendencioso. O procedimento duplo-cego impede esse viés ao impedir que avaliadores conheçam a condição experimental de cada participante.
Assim, o estudo duplo-cego atua em duas frentes: evita que participantes deduzam o que se espera deles e impede que pesquisadores deixem que suas expectativas influenciem o registro dos dados.
Qual é a diferença entre estudo simples-cego, duplo-cego e triplo-cego?
Os estudos podem envolver níveis distintos de cegamento. No estudo simples–cego, ocultamos de cada participante sua condição experimental. Assim, esse procedimento controla principalmente vieses de expectativas do próprio participante (Figura 2).

Por exemplo, se os níveis de ansiedade se reduzem no grupo controle, mas essa redução é ainda maior no grupo tratamento, que recebe um antiansiolítico, temos evidências de que os efeitos do tratamento são superiores aos de mero efeito placebo.
No entanto, com o estudo simples cego, ainda é possível que os resultados sejam decorrentes de efeitos de expectativas dos observadores.
Isso é contornado com um controle adicional, que ocorre no estudo duplo-cego: nele, ocultamos tanto dos participantes quanto dos pesquisadores quem recebe qual tratamento (Figura 3). Desse modo, ele controla vieses de demanda e vieses dos observadores simultaneamente.

No entanto, ainda existe uma fonte de viés na pesquisa: um analista de dados que acredita fortemente na eficácia de um antiansiolítico pode, mesmo sem perceber, escolher análises secundárias que favoreçam a hipótese.
Desse modo, em um estudo triplo-cego, damos um passo além e ampliamos o cegamento para quem analisa os dados (Figura 4).

Suponha que os grupos tratamento e controle foram codificados como 0 e 1, mas os valores numéricos são designados aleatoriamente aos grupos. No procedimento triplo-cego, os analistas de dados não sabem, durante as análises, quais são os rótulos associados aos grupos. Se combinado com um plano de análise pré-registrado, isso evita p-hacking e vieses durante as análises de dados.
O que é avaliação duplo-cega no processo de revisão?
O princípio do duplo-cego também aparece no contexto de publicações científicas, em um processo conhecido como revisão por pares. Em síntese, trata-se de um processo de avaliação em que especialistas da área de estudo analisam um texto científico submetido para publicação. O objetivo desse processo é garantir a qualidade, a validade e a relevância da pesquisa apresentada.
Quando aplicada ao processo de revisão por pares, a avaliação duplo-cega faz com que autores e revisores desconheçam a identidade uns dos outros. Nesse caso, o editor da revista, que conhece as identidades de ambas as partes, atua como mediador do processo de comunicação entre elas (Figura 5).

Com isso, a avaliação duplo-cega, ao ser aplicada a revisão por pares, tenta reduzir vieses baseados em reputação, gênero, instituição ou rede de colaboração. Embora existam debates sobre sua eficácia, existem evidências de que o processo ajuda a garantir julgamentos mais equitativos.
Por exemplo, Budden et al. (2008) mostraram que, após a implementação das políticas de revisão duplo-cega no periódico Behavioral Ecology, houve um aumento na representatividade de primeiras autoras de gênero feminino, quando comparado a periódicos de expressão similar, mas que não aderiram à revisão duplo-cega.
Desse modo, é possível que a avaliação duplo-cega siga desempenhando um papel importante na auditoria e avaliação de estudos que serão publicados em periódicos científicos.

Referências
Budden, A. E., Tregenza, T., Aarssen, L. W., Koricheva, J., Leimu, R., & Lortie, C. J. (2008). Double-blind review favours increased representation of female authors. Trends in Ecology and Evolution, 23(1), 4–6. https://doi.org/10.1016/j.tree.2007.07.008
Hulley, S. B., Cummings, S. R., Browner, W. S., Grady, D. G., & Newman, T. B. (2013). Designing clinical research (4th ed.). Lippincott Williams & Williams.
Kazdin, A. E. (2016). Research design in clinical psychology (5th ed.). Pearson.
Le Goues, C., Brun, Y., Apel, S., Berger, E., Khurshid, S., & Smaragdakis, Y. (2018). Effectiveness of anonymization in double-blind review. Communications of the ACM, 61(6), 30–33. https://doi.org/10.1145/3208157
Schulz, K. F., Chalmers, I., & Altman, D. G. (2002). The landscape and lexicon of blinding in randomized trials. Annals of Internal Medicine, 136(3), 254–259. https://doi.org/10.7326/0003-4819-136-3-200202050-00022
Como citar este post
Lima, M. (8 de dezembro de 2025). O que é um estudo duplo-cego? Blog Psicometria Online. https://blog.psicometriaonline.com.br/o-que-e-um-estudo-duplo-cego
