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Tudo que você precisa saber sobre inversão de itens de instrumentos de autorrelato

Marcos Lima

nov 10, 2025

Quando trabalhamos com instrumentos de autorrelato, é comum nos depararmos com a necessidade de inverter itens. No entanto, essa etapa nem sempre é compreendida — por exemplo, muitos estudantes não sabem exatamente quando ela deve ser aplicada nem por que ela é importante. Por isso, este post tem como objetivo explicar de forma clara tudo o que você precisa saber sobre a inversão de itens.

O que são itens positiva e negativamente orientados?

Primeiramente, precisamos entender o que significa itens positiva e negativamente orientados. Assuma que queremos medir responsividade interpessoal — a rapidez, frequência e intensidade com que uma pessoa responde aos seus interlocutores.

Um item positivamente orientado é aquele em que uma resposta alta indica maior nível do traço latente medido. Por exemplo, o item “Se eu tenho algo a dizer, não hesito em falar” reflete alta responsividade interpessoal quando o participante responde “concordo totalmente”.

Por outro lado, um item negativamente orientado é aquele em que uma resposta alta indica menor nível do traço latente. Nesse caso, o item “Frequentemente demoro um pouco para descobrir como me expressar” representa baixa responsividade interpessoal quando o participante responde “concordo totalmente”.

Mas por que incluir itens positiva e negativamente orientados em um mesmo instrumento? Em geral, essa escolha é intencional. Ela serve, primeiramente, para reduzir vieses de resposta, como o viés de aquiescência — a tendência de concordar automaticamente com todos os itens. Além disso, a presença de itens com orientações opostas exige que o respondente leia e reflita sobre cada afirmação, aumentando a qualidade dos dados coletados.

Para visualizar os efeitos da orientação dos itens, observe o padrão de respostas de dois participantes hipotéticos, Guto e Lucas. Primeiramente, veja como responde Guto, que possui elevada responsividade interpessoal (Figura 1).

padrão de respostas de um respondente com alto traço latente para ilustrar importância da inversão de itens.
Figura 1. Padrão de respostas de Guto.

Em seguida, compare com o padrão de respostas de Lucas, que tem baixíssima responsividade interpessoal (Figura 2).

padrão de respostas de um respondente com baixo traço latente para ilustrar importância da inversão de itens.
Figura 2. Padrão de respostas de Lucas.

Em síntese, ambos dão uma resposta “1” e uma “5”, mas o significado desses valores depende de quais itens foram respondidos de cada maneira. Desse modo, é necessário padronizar a orientação das respostas para análises subsequentes — e é aí que entra a inversão de itens.

Como fazer a inversão de itens de instrumentos de autorrelato?

A expressão inverter itens é, na verdade, uma simplificação. Tecnicamente, o que fazemos é inverter as respostas aos itens, e não os itens em si. Contudo, manteremos essa convenção ao longo do texto.

De forma resumida, inverter itens consiste em transformar respostas a itens negativamente orientados em respostas positivamente orientadas. Essa transformação é feita de modo simples, aplicando a seguinte fórmula:

fórmula para a inversão de itens.

Por exemplo, nosso instrumento é mensurado em uma escala de cinco pontos, que vai de 1 (discordo totalmente) a 5 (concordo totalmente). Assim, os itens negativamente orientados são invertidos seguindo a lógica da Tabela 1.

Escore originalEscore invertido
16 – 1 = 5
26 – 2 = 4
36 – 3 = 3
46 – 4 = 2
56 – 5 = 1
Tabela 1. Escores originais e invertidos em uma escala de cinco pontos.

Voltemos a Guto e a Lucas. No item “Frequentemente demoro um pouco para descobrir como me expressar”, os escores corrigidos serão: Gutoinvertido = 6 – 1 = 5 e Lucasinvertido = 6 – 5 = 1.

Conceitualmente, isso equivale a estimar o que cada participante teria respondido se o item fosse redigido de forma positiva, como, por exemplo: “Frequentemente, sou rápido para descobrir como me expressar”.

Agora, Guto, com alta responsividade interpessoal, apresenta escore 5 em ambos os itens, enquanto Lucas, com baixa responsividade, apresenta escore 1. Em suma, a inversão de itens é uma etapa de padronização das respostas.

Veja também: Entenda o que é escala Likert

banner do post sobre escala Likert.

Inversão de itens: perguntas frequentes (FAQ)

Quando inverter itens? A inversão de itens é necessária sempre que o instrumento possuir itens positiva e negativamente orientados. Em outras palavras, se uma parte dos itens indica níveis altos do traço e outra parte indica níveis baixos, a inversão é indispensável.

Quais itens devem ser invertidos? Normalmente, invertem-se todos os itens negativamente orientados, mantendo os positivos intactos. No entanto, é possível fazer o oposto — inverter apenas os itens positivos — se for desejável interpretar escores mais altos como baixos níveis do traço (embora isso possa gerar confusão).

É preciso inverter itens para a análise fatorial? A inversão de itens não altera o ajuste do modelo, apenas muda o sinal das cargas fatoriais dos itens negativos. Portanto, a inversão é opcional nesse tipo de análise.

Devo inverter os itens para calcular índices de consistência interna? Sim, é obrigatório. Índices como o alfa de Cronbach tendem a subestimar a consistência interna quando há itens que deveriam ter sido invertidos, mas não o foram. Isso ocorre porque pares de itens positivamente e negativamente orientados geram covariâncias negativas, o que reduz artificialmente a estimativa de consistência.

Devo inverter os itens para calcular os escores finais dos respondentes? Sim. Ao somar ou calcular médias das respostas, é essencial que todos os itens tenham a mesma direção. Sem a inversão, Guto e Lucas, por exemplo, teriam ambos escore médio 3 (soma = 6). Após a inversão de itens, os escores passam a refletir corretamente as diferenças: Guto = 5 (soma = 10) e Lucas = 1 (soma = 2).

Onde realizar a inversão de itens? Como se trata de um procedimento simples, é possível fazer a inversão de itens em planilhas (como o Excel) ou em softwares estatísticos, como SPSS, JASP, jamovi ou R.

Conclusão

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Referências

Bandalos, D. L. (2018). Measurement theory and applications for the social sciences. The Guilford Press.

Field, A. (2017). Discovering statistics using IBM SPSS Statistics (5th ed.). Sage.

Swann, W. B., & Rentfrow, P. J. (2001). Blirtatiousness: Cognitive, behavioral, and physiological consequences of rapid responding. Journal of Personality and Social Psychology, 81, 1160–1175. https://doi.org/10.1037/0022-3514.81.6.1160

Como citar este post

Lima, M. (2025, 10 de novembro). Tudo que você precisa saber sobre inversão de itens de instrumentos de autorrelato. Blog Psicometria Online. https://blog.psicometriaonline.com.br/tudo-que-voce-precisa-saber-sobre-inversao-de-itens-de-instrumentos-de-autorrelato

Bruno Figueiredo Damásio

Sou Psicólogo, mestre e doutor em Psicologia. Venho me dedicando à Psicometria desde 2007.

Fui professor e chefe do Departamento de Psicometria da UFRJ durante os anos de 2013 a 2020. Fui editor-chefe da revista Trends in Psychology, da Sociedade Brasileira de Psicologia (SBP) e Editor-Associado da Spanish Journal of Psychology, na sub-seção Psicometria e Métodos Quantitativos.

Tenho mais de 50 artigos publicados e mais de 5000 citações, nas melhores revistas nacionais e internacionais.

Em 2020, saí da UFRJ para montar a minha formação, a Psicometria Online Academy.

Meu foco é que você se torne um(a) pesquisador(a) de excelência. Clique aqui para conhecer a Academy.

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