O seu Blog de Psicometria

Tenha acesso à nossa enciclopédia virtual de conhecimento em Psicometria e Análise de Dados

Junte-se a mais de 22.300 membros e receba conteúdos exclusivos e com prioridade

Compartilhe nas Redes Sociais

Comunalidade vs. singularidade: entendendo as diferenças

Alex França

maio 29, 2025

Neste post, vamos explorar o que é a comunalidade, como ela se relaciona com a singularidade e por que esses conceitos são fundamentais na análise fatorial exploratória.

Primeiramente, explicaremos a comunalidade, destacando sua definição, interpretação e pontos de corte. Em seguida, abordaremos a singularidade e mostraremos como ela complementa a análise. Por fim, discutiremos como esses dois conceitos ajudam na tomada de decisões ao selecionar ou excluir variáveis em um modelo fatorial.

O que é comunalidade?

Análise fatorial exploratória (AFE) é uma técnica estatística amplamente utilizada na área da psicometria para compreender a estrutura subjacente dos dados observados.

No contexto da AFE, os fatores comuns extraídos no modelo explicam uma proporção da variância de cada variável observada — chamamos essa proporção de comunalidade. Em outras palavras, a comunalidade de um item indica o quanto esse item compartilha sua variância com outros itens do conjunto analisado.

Os valores de comunalidade (h2) variam de 0 a 1. Quanto mais próximo de 1, maior a parte da variância da variável explicada pelos fatores. Sendo assim:

  • Comunalidade próxima de 0: sinaliza que a variável tem pouca relação com os fatores comuns. Ela pode estar medindo algo único ou não relacionado ao construto em análise.
  • Comunalidade próxima de 1: indica que os fatores comuns representam bem a variável observada. Ou seja, a variável observada compartilha ampla variância com outras variáveis observadas.

Exemplo: suponha que realizamos uma AFE com itens cujos conteúdos abordam autoestima, confiança e motivação. Se esses itens forem explicados por um fator comum, como autoconfiança, então as comunalidades refletirão quanto da variância de cada item é explicada por esse fator.

banner do glossário de análise fatorial exploratória.

Pontos de corte para interpretar a comunalidade

Embora os pontos de corte variem conforme o contexto, algumas faixas são geralmente aceitas:

  • Acima de 0,70: indicam forte relação dos itens com os fatores comuns. Em outras palavras, as variáveis são representativas da estrutura em estudo.
  • Entre 0,50 e 0,70: sugerem uma representação moderada, mas geralmente adequada.
  • Abaixo de 0,50: revelam baixa representação pelos fatores comuns. Sendo assim, em tal cenário, deve-se avaliar se a variável realmente contribui para a análise.

O que é singularidade?

A singularidade (ou variância única, u2) é tudo aquilo os fatores comuns não capturam. Em outras palavras, é a fração exclusiva da variabilidade da variável.

Exemplo: Se adicionarmos um item que aborda o tema ansiedade ao conjunto anterior de itens e ele não se correlacionar bem com os itens sobre autoestima, confiança e motivação, então a singularidade do item sobre ansiedade será alta. Isso indicará, portanto, que o fator comum autoconfiança não explica a variância desse item.

A singularidade se divide em duas partes:

  • Variância específica: relacionada ao conteúdo particular do item que não é compartilhado com os demais itens. Por exemplo, o item “Sinto-me motivado apenas quando recebo elogios” pode ter uma porção de variância específica ligada à motivação extrínseca, que não está diretamente relacionada ao fator mais geral de autoconfiança.
  • Variância de erro (ou erro de medida): variações imprevisíveis, causadas por fatores externos, tais como má interpretação da pergunta, cansaço, distrações etc. Por exemplo, um participante marcou respostas inconsistentes porque, durante o teste, ficou nervoso após lembrar de uma crítica recebida no trabalho — algo que afetou momentaneamente sua autopercepção de confiança.

A Figura 1 sumariza a relação entre comunalidade e singularidade. Além disso, ela apresenta outros termos que são tipicamente utilizados quando se aborda o particionamento da variância de itens no modelo do fator comum. Para uma representação alternativa, consulte Damásio (2012), Figura 1.

representação esquemática da comunalidade e da singularidade.
Figura 1. Relação entre os conceitos de variância total, variância comum (comunalidade), variância única (singularidade), variância específica e variância de erro (erro de medida). O subscrito i representa o item i de um instrumento.

Pontos de corte para interpretar a singularidade

Assim como ocorre com a comunalidade, a interpretação da singularidade depende do contexto. No entanto, algumas diretrizes são amplamente utilizadas:

  • Acima de 0,50: o item apresenta alta singularidade, o que pode indicar que está medindo algo específico, fora da estrutura comum dos demais itens sob análise.
  • Entre 0,30 e 0,50: o item tem uma proporção moderada de variância exclusiva.
  • Abaixo de 0,30: a maior parte da variância do item é explicada pelos fatores comuns.

Comunalidade e singularidade na prática

A avaliação da comunalidade e da singularidade oferece informações valiosas para interpretar e ajustar modelos fatoriais. Veja como esses indicadores ajudam em diferentes decisões analíticas.

Comunalidade na AFE

A análise da comunalidade permite:

  • Identificar variáveis representativas: variáveis com comunalidade elevada são mais alinhadas aos fatores extraídos.
  • Selecionar itens relevantes: itens com comunalidades muito baixas podem ser candidatos à exclusão, contribuindo para um modelo mais claro e coeso.

Singularidade na AFE

Já a análise da singularidade ajuda a:

  • Detectar variáveis com características únicas: variáveis com alta singularidade podem captar aspectos distintos e complementares ao modelo.
  • Tomar decisões fundamentadas sobre inclusão: a exclusão de itens com alta singularidade deve considerar o valor teórico da variável.

Veja também: O que são cargas fatoriais?

banner do post sobre cargas fatoriais no post de comunalidade.

Encontrando o equilíbrio entre comunalidade e singularidade

A chave para uma boa AFE está no equilíbrio. Enquanto valores altos de comunalidade favorecem a integração da variável ao modelo, a singularidade também pode ser informativa. Afinal, variáveis com alta singularidade não são necessariamente “ruins” — elas podem captar nuances únicas do construto.

Por exemplo, suponha que, além dos itens sobre autoestima, confiança e motivação, seu instrumento também inclua o item: “Consigo manter a calma mesmo quando recebo críticas”.

Durante a AFE, esse item apresentou alta singularidade (por exemplo, u2 = 0,58), o que indica que apenas 42% da sua variância foi explicada pelos fatores comuns. Em termos estatísticos, isso pode parecer um motivo para excluí-lo. No entanto, teoricamente, esse item pode captar um aspecto específico e valioso do fator autoconfiança: a resiliência emocional diante de críticas — algo que não está fortemente refletido nos demais itens do conjunto.

Por isso, a decisão de manter ou excluir uma variável deve se basear tanto em critérios estatísticos quanto na teoria e nos objetivos de sua pesquisa.

banner da Psicometria Online Academy.

Como citar este post

França, A. (2025, 29 de maio). Comunalidade vs. singularidade: Entendendo as diferenças. Blog Psicometria Online. https://www.blog.psicometriaonline.com.br/comunalidade-vs-singularidade-entendendo-as-diferencas/

Bruno Figueiredo Damásio

Sou Psicólogo, mestre e doutor em Psicologia. Venho me dedicando à Psicometria desde 2007.

Fui professor e chefe do Departamento de Psicometria da UFRJ durante os anos de 2013 a 2020. Fui editor-chefe da revista Trends in Psychology, da Sociedade Brasileira de Psicologia (SBP) e Editor-Associado da Spanish Journal of Psychology, na sub-seção Psicometria e Métodos Quantitativos.

Tenho mais de 50 artigos publicados e mais de 5000 citações, nas melhores revistas nacionais e internacionais.

Em 2020, saí da UFRJ para montar a minha formação, a Psicometria Online Academy.

Meu foco é que você se torne um(a) pesquisador(a) de excelência. Clique aqui para conhecer a Academy.

Compartilhe sua opinião sobre este post

0 0 Votos
Classificação do artigo
Inscrever-se
Notificar de
guest

5 Comentários
mais antigos
mais recentes Mais votado
Feedbacks embutidos
Ver todos os comentários
GEORGE LEAL SCHAFFLOR MELLO
GEORGE LEAL SCHAFFLOR MELLO
1 ano atrás

Nos resultados dos aplicativos de AF, onde surge esse índice? No caso do Jamovi, é representado na coluna de “Uniqueness”? Essa é uma informação que pode parecer óbvia, mas, para efeito de relatos, acho positivo constar no post.

Marcos Lima
Admin
Responder para  GEORGE LEAL SCHAFFLOR MELLO
1 ano atrás

Olá, George! Muito obrigado por sempre trazer comentários relevantes nos posts. Estamos atualizando os conteúdos dos posts, e suas contribuições certamente serão consideradas durante essas atualizações. No caso da singularidade, ela costuma ser apresentada na tabela contendo as Cargas Fatoriais (Cross Loadings). No JASP e no jamovi, essa informação aparece em uma coluna cujo nome é Uniqueness ou Singularidade, a depender do idioma de configuração da instalação. Vale notar que, para cada item, a somas dos quadrados das cargas fatoriais + singularidade = 1.

Equipe Psicometria Online.

George Mello
George Mello
Responder para  Marcos Lima
1 ano atrás

Salve, Marcos.
Você é da UnB? Acho que você me prestou uma consultoria em uma disciplina no PSTO, confere?
Abraços

Marcos Lima
Admin
Responder para  George Mello
1 ano atrás

Sou eu mesmo, George. Confere! Lembro-me de nossas conversas no LASI. Um abraço!
Equipe Psicometria Online.

GEORGE MELLO
GEORGE MELLO
Responder para  Marcos Lima
11 meses atrás

Que legal estar colaborando com a Academy, que é uma unanimidade. Abraços.

Posts sugeridos

Por que a invariância de medição é importante?

Como interpretar a SRMR e o RMSEA em uma análise fatorial confirmatória?

O que é análise fatorial confirmatória?

Conteúdo

Mais lidos

O que é correlação de Pearson?

Teste t de Student

O que é o teste de Shapiro-Wilk?

O que é correlação de Spearman?

Postados recentemente

O que são efeitos principais e efeitos de interação?

Regularização: o personal trainer da Machine Learning

Quais são as diferenças entre os delineamentos intrassujeitos e entressujeitos?

Efeito teto e efeito chão: o que são e por que eles importam?

Deseja se tornar completamente independente na análise dos seus dados?

Junte-se a mais de 22.300 membros e receba conteúdos exclusivos e com prioridade

Categorias